O Grande Ditador - filme de Charlie Chaplin
Historiar
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Lista de filmes para trabalho em sala de aula
http://saturnizinforma.com.br/2016/02/21/lista-de-filmes-para-trabalhar-em-sala-de-aula-facam-seu-download/
Prostituição na Grécia Antiga
Em Atenas era atribuída a Sólon a criação de bordéis estatais com
preços regulados. A prostituição envolvia de forma desigual os sexos: mulheres
de todas as idades e jovens do sexo masculino prostituíam-se para uma clientela
maioritariamente masculina.
Cortesã e o seu cliente
Prostituição
feminina
Uma
passagem do Contra Neera, obra apócrifa atribuída a Demóstenes, coloca as seguintes palavras na
boca do famoso orador ateniense: "Temos cortesãs para nos dar prazer;
temos concubinas para com elas coabitarmos diariamente; temos esposas com o
propósito de termos filhos legítimos e de termos uma guardiã fiel de tudo o que
se refere à casa". Mesmo admitindo que a realidade não correspondesse a
esta versão caricatural, não deixa de ser claro que os gregos não reprovavam o
recurso à prostituição.
Simultaneamente
as leis censuravam severamente as relações com uma mulher livre fora do
contexto do casamento, pois esperava-se destas a castidade. Em caso de adultério, o marido enganado tinha o direito
de matar o ofensor, caso o apanhasse em flagrante delito; aplicava-se o mesmo
em caso de violação. A idade média
de casamento para
os homens era aos trinta anos, pelo que o jovem ateniense que desejasse manter
relações sexuais não teria outro recurso senão recorrer à prostituição.
A
existência de uma prostituição feminina destinada às mulheres encontra-se pouco
documentada. No Banquete de Platão, Aristófanes menciona as ἑταιρίστριαι
/ hetairístriai no seu famoso mito sobre o Amor: "Todas as
mulheres que são o corte de uma mulher não dirigem a sua atenção aos homens:
elas preferem as mulheres e daqui provem as hetairístriai". O
significado desta palavra é obscuro, sendo traduzível pelo moderno conceito de lésbica ou então como cortesã. Luciano de Samósata refere-se
a estas no Diálogo das Cortesãs, mas é possível que seja apenas uma
alusão à passagem da obra de Platão.
Pornai
As
prostitutas da Grécia Antiga podem ser enquadradas em várias categorias. Na parte
inferior da escala encontravam-se as πόρναι/pornai, palavra que
deriva de πέρνημι/pérnêmi"vender". Estas mulheres eram em
geral escravas, propriedade de um πορνοϐοσκός / pornoboskós, isto
é, de um proxeneta, que retirava para si uma quantia do dinheiro por elas
ganho. O dono destas prostitutas poderia ser um cidadão, pois trata-se de uma
forma de rendimento igual a qualquer outra. Teofrasto, na obra Caracteres (VI,
5), cita o proxeneta na lista de profissões correntes, onde se incluem o dono
de uma hospedaria e o colector de impostos. O dono poderia também ser um ou uma
estrangeira (meteco).
Na
Época Clássica as prostitutas são escravas de origem bárbara. Durante a Época
Helenística juntam-se a estas jovens abandonadas pelo pai, consideradas como
escravas até prova em contrário. As prostitutas trabalhavam em bordéis,
geralmente situados em zonas da cidade associadas à actividade, como o Pireu (porto
de Atenas) ou o Cerâmico. A
sua clientela era composta por marinheiros e cidadãos pobres.
Nesta
categoria também se enquadram as mulheres que trabalhavam nos bordéis estatais
de Atenas. Segundo Ateneu de Naucrátis,
citando o autor cómico Filémon e Nicandro de Cólofon,
foi Sólon quem "preocupado em acalmar os ardores dos jovens (...) tomou a
iniciativa de abrir casas de passe e de ali instalar mulheres compradas".
O mesmo Sólon teria mandado erguer com dinheiro taxado à actividade da
prostituição o templo de Afrodite Pandemos, "Afrodite do povo".
Embora estes relatos possuam uma veracidade duvidosa, não deixa de ser
revelador que em Atenas se considerava a prostituição como parte da democracia.
Prostitutas independentes
Estas
mulheres eram de origem diversa: mulheres estrangeiras que não encontravam
emprego na cidade a que tinham chegado, viúvas pobres, antigas pornai que tinham adquirido a sua liberdade (mas que tinha que pagá-la).
Em Atenas estavam
sujeitas a uma taxa e tinham que ser registadas.
Podem
ser incluídas nesta categoria as músicas e dançarinas que trabalhavam nos
banquetes. Aristóteles, na sua Constituição
dos Atenienses, menciona entre as atribuições específicas dos dez astinomos
encontrava-se o não permitir que as tocadoras de flauta, de lira e de cítara sejam
alugadas por mais de dois dracmas por noite. Os serviços sexuais faziam parte
da prestação dos serviços, tendo os preços tido uma tendência para aumentar,
apesar do controlo dos astinomos.
As hetairas
As hetairas, ou heteras, encontravam-se no mais
alto grau das prostitutas da Grécia Antiga. Ao contrário das outras, não se
limitavam a oferecer serviços sexuais e não trabalhavam "por peça".
As hetairas eram antes acompanhantes, em certa medida comparáveis às gueixas: possuíam uma boa educação que lhes
permitia dialogar com figuras cultivadas. As hetairas eram independentes e
poderiam gerir os seus próprios bens.
Uma
das hetairas mais famosas foi Aspásia, amante de Péricles. Originária de Mileto, sendo portanto uma estrangeira em
Atenas, Aspasia conviveu com Sófocles, Fídias e com Sócrates e os seus
discípulos. Plutarco (Vida de Péricles, XXIV, 2) refere-se a ela como
uma personalidade detentora de poder, que teve sob a sua rédea aos homens
políticos mais importantes.
Para
além de Aspásia, conhecem-se outras hetairas da Época Clássica, como Teodota,
companheira de Alcibíades, com a qual
Sócrates dialoga nos Memóraveis (III, 11, 4); Neera, tema de
um discuro do Pseudo-Demóstenes; e Friné, modelo da Afrodite de Cnido, obra-prima do escultor Praxíteles, da qual foi amante, tendo também
mantido uma relação com Hipérides, orador que a defendeu quando foi
acusada de impudícia.
Prostituição sagrada
A
Grécia não conheceu na mesma escala o fenómeno da prostituição sagrada que
existiu nas civilizações do Próximo Oriente.
Os únicos casos conhecidos referem-se a franjas remotas do mundo grego (Sicília, Chipre, reinos do Ponto e Capadócia) e
a cidade de Corinto cujo templo de Afrodite albergava um número significativo
de servidores pelo menos desde a Época Clássica. Em 464 a.C., um homem chamado
Xenofonte, cidadão de Corinto vencedor das provas de corrida e pentatlo nos
Jogos Olímpicos, dedicou a Afrodite cem moças em sinal de agradecimento.
Durante a era romana, Estrabão refere que
este templo possuía mais de cem prostitutas sagradas.
Esparta
De
todas as cidades da Grécia Antiga, Esparta era conhecida por não abrigar nenhuma
porné. Plutarco (Vida de Licurgo, IX, 6)
explica o fenómeno pela ausência de metais preciosos e de uma verdadeira moeda
- Esparta utilizava uma moeda de ferro que não era reconhecida em nenhum outro
sítio - razões pelas quais nenhum proxeneta tinha interesse em ali se instalar.
A única evidência que parece contradizer a inexistência da prostituição
refere-se a um vaso do século VI a.C. que mostra mulheres a tocar o aulos
(flauta) num banquete. No entanto, julga-se tratar-se da reprodução de um tema
iconográfico e não da representação da realidade espartana da época. A presença
de elementos como um demónio alado, frutas, plantas e de um altar sugerem que
pode tratar-se de um banquete em honra de umas divindades da fertilidade, como
Ártemis Órtia ou Apolo Jacinto.
Contudo,
durante a Época Clássica Esparta conheceu as hetairas. Ateneu refere as
cortesãs com as quais Alcibíades se encontrou durante o seu
exílio na cidade (415-414 a.C.).
A
partir do século III a.C., quando grandes quantidades de moeda estrangeira
circulam na Lacónia, Esparta enquadra-se na norma das outras cidades gregas em
matéria de prostituição. Na Época helenística Polémon
de Atenas descreve ao retrato da célebre hetaira Cotina e
à vaca de bronze por si dedicada.
Condições de vida das prostitutas
A
condição das prostitutas é difícil de avaliar; pelo simples facto de serem
mulheres, já se encontravam relegadas a uma posição inferior na sociedade
grega. Não se conhecem testemunhos directos sobre as suas vidas nem descrições
dos bórdeis onde trabalhavam. É muito provável que os bórdeis da Grécia fossem
semelhantes aos de Roma, descritos pelos escritores e preservados em locais
como Pompeia: locais escuros, estreitos e
malcheirosos. Um dos termos correntes entre os Gregos para designar uma
prostituta era χαμαιτυπής / khamaitypếs, o que significa "que toca a
terra", sugerindo que a prestação do serviço tinha lugar no chão.
Alguns
autores colocam as prostitutas a falarem de si mesmas nas suas obras. É o Luciano de Samósata no Diálogos
das Cortesãs e Alcifrón nas suas cartas, mas importa ter
presente que se tratam de obras de ficção. As prostitutas apresentadas nestas
obras são independentes ou hetairas, não se referindo às prostitutas escravas,
a não ser para considerá-las como fonte de lucro. Os textos revelam claramente
que as prostitutas eram censuradas pela natureza mercantil da actividade que
exerciam. Para um grego uma pessoa que se prostituia, fosse mulher ou homem, o
fazia por necessidade económica ou por gosto pelo lucro. A ganância das
prostitutas é assim um tema recorrente na comédia grega. Deve ser referido que
em Atenas elas eram as únicas mulheres a lidar com dinheiro, o que
provavelmente provocava o ressentimento dos homens. Outra explicação possível
para este suposto gosto pela ganância relaciona-se com a curta duração da
carreira de prostituta: para poderem guardar algum dinheiro para a velhice
tornava-se conveniente acumular o máximo de dinheiro em pouco tempo.
Os
tratados de medicina fornecem um olhar, se bem que parcial e incompleto, sobre
a vida quotidiana das prostitutas. Para as prostitutas escravas tornava-se
necessário a evitar a todo o custo a gravidez. Os métodos contraceptivos usados
pelos Gregos são menos conhecidos que os utilizados pelos Romanos. No entanto,
num tratado atribuído a Hipócrates, descreve-se o caso de uma dançarina
"que tinha por hábito ir com os homens", à qual recomenda saltar para
desta forma fazer sair o esperma, evitando o risco
de gravidez. É também provável que aspornai recorressem ao aborto e
ao infanticídio por
exposição.
A
cerâmica grega permite igualmente conhecer a vida das prostitutas. A
representação das prostitutas pode ser dividida em quatro categorias: cenas de
banquete, cenas de actividade sexual, cenas de satisfação de necessidades
fisiológicas e cenas de maus-tratos. Nas cenas de satisfação das necessidades
fisiológicas é frequente que a prostituta seja retratada com um corpo pouco
gracioso, ou seja, com peito descaído e adiposidades. Nas cenas de relações
sexuais, reconhece-se a presença de uma prostituta pela presença de uma bolsa.
A posição sexual mais representada corresponde à mulher sendo penetrada
encontrando-se de joelhos, o que pode corresponder a penetração vaginal ou
anal. O sexo anal era considerado degradante e aparentemente esta posição era
descrita como pouco agradável para a mulher. Alguns vasos mostram cenas nas
quais as prostitutas são ameaçadas com com um pau ou uma sandália a aceitar
realizar actos considerados degradantes, como a prática do sexo oral e sexo
anal.
Apesar
das hetarias serem as mulheres mais livres da Grécia, deve ser referido que
muitas delas desejavam tornarem-se respeitadas pela sociedade e encontrar um
marido.
Prostitutas na literatura
No
tempo da Comédia
Nova as prostitutas, junto com os escravos, tornaram-se
verdadeiras estrelas das comédias. Isto pode ser explicado pelo ênfase dado
pela Comédia Nova a aspectos da vida privada e quotidiana, por oposição aos
temas políticos tratados pela Comédia Antiga.
Na
obra Amores Ovídio afirma:
"Enquanto os escravos forem falsos, os pais severos, as coscuvilheiras
pérfidas e as meretrizes fáceis, Menandro viverá". No teatro de Menandro,
a prostituta poderia ser uma amiga de infância do protagonista, que entrou no
mundo da prostituição depois de ter sido abandonada ou raptada por piratas;
reconhecida pelos pais, abandona o mundo da prostituição para casar.
Prostituição
masculina
A
Grécia Antiga possuia também uma grande quantidade de πόρνοι / pórnoi,
prostitutos. Uma parte deles trabalhava para uma clientela feminina,
encontrando-se atestada a existência de gigolos desde a Época Clássica. Na
comédia Pluto, Aristófanes coloca em cena uma mulher de idade
avançada que gastou todo o seu dinheiro num amante que agora a rejeita.
Contudo, a maioria dos prostitutos trabalhava para uma clientela masculina.
Prostituição e pederastia
Ao
contrário da prostituição feminina, que envolvia mulheres de todas as idades, a
prostituição masculina encontra-se praticamente confinada ao grupo dos
adolescentes.
O
período durante o qual os adolescentes eram considerados desejáveis estendia-se
entre a puberdade e o aparecimento da barba, constituindo a ausência de pêlos
um elemento de erotismo entre os gregos. São mesmo conhecidos casos de homens
que tinham como amantes homens mais jovens que se mantinham depilados.
Da
mesma maneira que acontecia com a versão feminina, a prostituição masculina não
era para os gregos objecto de escândalo. Os bordéis de rapazes existiam não
apenas nas zonas do Piréu, Keramaikos, no monte Licabeto, mas um pouco por toda
a Atenas. Um dos mais célebres destes jovens prostitutos é sem dúvida Fédon de Élis.
Feito escravo durante a tomada da sua cidade, o jovem trabalhou num bordel até
que Sócrates o conheceu, tendo o filósofo comprado a sua liberdade. O jovem
tornou-se seu discípulo, tendo o seu nome sido atribuído a dos diálogos de
Platão, o Fédon que narra os
instantes finais da vida de Sócrates. Os prostitutos masculinos encontravam-se
também sujeitos ao pagamento de uma taxa.
Prostituição e cidadania
A
existência de uma prostituição masculina em larga escala revela que os gostos
pederásticos não estavam restritos a determinada classe social. Os cidadãos que
não tinham tempo ou disponibilidade para seguir os rituais da pederastia
(observar os jovens no ginásio, fazer a corte, oferecer presentes), poderiam
recorrer aos prostitutos, que à semelhança das prostitutas encontravam-se
protegidos pela lei contra as agressões físicas. Outra razão que explica o
recurso à prostituição relaciona-se com os tabus sexuais: os gregos
consideravam a prática dosexo oral como um
acto degradante. Assim, numa relação pederástica o erastés (amante
mais velho) não poderia pedir ao erómenos que praticasse este
acto, reservado aos prostitutos.
Apesar
do exercício da prostituição ser legal, era mesmo assim uma prática vergonhosa,
encontrando-se associado aos escravos ou aos estrangeiros. Em Atenas tinha para
um cidadão consequências políticas, nomeadamente a perda dos direitos civícos (atimía).
Na obra Contra Timarco, Ésquines defende-se dos ataques de Timarco com a acusação deste ter
praticado a prostituição durante a juventude, devendo por isso ser excluído dos
seus direitos políticos, como o de apresentar queixa contra alguém.
Preços
Tal
como no caso das mulheres, os preços cobrados pelos serviços variam
consideravelmente. Ateneu refere-se a um rapaz que oferecia os seus serviços
por um óbolo, mas o valor é considerado demasiado
baixo. Estratão de Sardes,
autor de epigramas, refere uma transacção por cinco
dracmas. Uma carta do Pseudo-Ésquines estima em 3000 dracmas o dinheiro ganho
por um tal Melanopo, provavelmente durante toda a sua carreira.
Bibliografia
·
HALPERIN,
David M. - "The Democratic Body; Prostitution and Citizenship in Classical
Athens" em One Hundred Years of Homosexuality: And Other Essays on
Greek Love. Nova Iorque: Routledge, 1989. ISBN 0-415-90097-2
·
VANOYEKE,
Violaine - La Prostitution en Grèce et à Rome. Paris:
Les Belles Lettres, 1990.
Assinar:
Comentários (Atom)